Em seu retorno a Goiânia, o expoente atual da Música
Popular Brasileira, Alexandre Kassin, apresentou na capital sua peculiar sonoridade que vem dando
o que falar na crítica musical do país. Divulgando o seu último trabalho,
o disco Sonhando Devagar, o músico abriu a nova série de shows produzida pela
Universidade Federal de Goiás, por meio da Pró-Reitoria de Extensão e Culturaa
(Proec), com patrocínio da Construtora Consciente e apoio d´A Construtora Música
e Cultura, o projeto Música Consciente. Em um show bem intimista para quem
curte música de sonoridade experimental, o cantor trouxe à capital a irreverência
das letras que remetem a sonhos tidos em várias épocas de sua vida. Abrindo um
repertório com a canção Mundo Natural, conduziu junto com Donatinho e Stefan San
Juan, um show com perfeccionismo instrumental que acompanha o extenso currículo
de cada um dos músicos. Há quase vinte anos no meio da produção de música, já
fez parcerias com grandes nomes como Caetano Veloso, Lenine, Los Hermanos, Vanessa da Mata entre outros. Kassin estreou nos palcos
na década de 90 com a extinta banda Acabou La Tequila. Porém, foi no ano 2000
que entrou com força na composição de canções que fizeram parte do espólio de
trabalhos como o + 2, com Moreno Veloso e Domenico Lancelloti, e também + Ela,
com Adriana Calcanhoto. Em sua passagem pela cidade, conversamos com o artista,
que contou sobre pontos interessantes da carreira como músico e produtor.
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Por
Marcos Carneiro
Fotos:
Luiz Rodrigues
Se você fosse fazer uma timeline da sua carreira, quando foi o
começo do seu casamento com a música?
Eu
comecei a tocar com oito anos. Minha relação com a música começou bastante cedo por
causa do meu irmão, que era discotecário de uma equipe de som no Rio. Então eu ouvia
bastante disco em casa. A
relação de música que eu tinha antes de pegar em um instrumento era de ouvir
disco. Comecei a tocar violão acompanhando os discos e não tocava se estivesse
só com o violão. Era preciso um disco ali tocando pra eu conseguir.
Então foi o seu irmão que
deu esse pontapé inicial?
Não
exatamente. Quando eu estava com uns 11 anos, eu morava lá no Rio de Janeiro em
um prédio. O cara que morava exatamente no andar de baixo era um baixista
acústico chamado Edson Lobo, que era um cara bem influente na Bossa Nova. Ele
começava ali a estudar contra-baixo, porque ele fazia parte de uma orquestra
naquele momento. Enquanto ele tocava eu ia acompanhando no andar de cima com o
meu violão.
Isso tudo sem ele saber?
Pois
é, não sei até em que ponto havia isso, mas ele sabia que eu era criança e
certa vez me disse que eu deveria estudar baixo com ele. Me convidou desse
modo: ‘você deveria estudar baixo. Vem para o meu apartamento, que lá tem um
baixo menor e posso te passar umas coisas.’ Então foi o Edson que me ensinou a
tocar baixo e me botou pra trabalhar também. Me indicava certos locais pra
colocar a mão na massa mesmo.
Por exemplo o quê?
Ele
tocava em um karaokê, por exemplo. Daqueles tipo de Piano-Bar, com baixo, piano
e bateria. E quando ele não podia ir, ele me falava: ‘olha, e não posso ir. Vá
lá você.’ E eu com 12 anos por aí, ia lá com permissão dos pais ainda. E minha
família não tinha tanta condição, pois éramos família de classe média-baixa,
então quando eu não tinha instrumento, esse Edson me emprestava e tudo mais. De
certa forma, essas coisas também significavam uma graninha entrando no bolso
pra eu me sustentar. Então foi ele que me indicou que a música poderia ser uma
profissão pra mim, pois antes disso era tudo muito distante.
Um dos seus primeiros
trabalhos com banda foi o Acabou La Tequila.
Porque o conjunto não perpetuou até os dias atuais?
Aquilo
era uma galera de colégio. Todos os integrantes eram todos da mesma turma na
escola. Da turma, o Pedro Sá foi quem me apresentou o Domenico Lancelotti, com
quem depois eu fiz o projeto + 2. O resto do pessoal era todos do Acabou La Tequila. Na época era o
Bacalhou, que hoje toca no Autoramas e foi também da Planet Hemp. O Renato, que
hoje toca no Canastra. O Donida e o irmão dele, que hoje em dia tocam no
Matanza. Outro cara da banda era o João Calado, que hoje é um super tocador de
cavaquinho e toca com a Tereza Cristina. Todo mundo do grupo tinha um interesse
em comum e essa galera eram os homens da sala. Tirando o pessoal da banda, o
restante das pessoas eram as meninas. Gravamos um primeiro disco, e no segundo
disco, o conteúdo foi posto na geladeira. E as coisas foram demorando demais
pra acontecer, porque depois tínhamos que brigar por direitos autorais para
gravar, tudo ficou meio difícil. E o Matanza foi fluindo, o Canastra foi
fluindo, enfim, os projetos paralelos dos caras foram crescendo enquanto a
gente tava na geladeira.
Foi neste contexto que
você começou o ofício de produtor?
Eu
já estava trabalhando como produtor antes disso tudo acontecer. Na época do
colégio mesmo já tinha rolado. Tinha algo gravado para Fernanda Abreu e Lenine.
Quais foram os primeiros
trabalhos como produtor?
Eu
já tinha gravado algumas faixas pra alguns músicos. Mas o primeiro álbum completo
foi para o próprio Acabou La Tequila. Foi
um álbum que fiz junto com Tom Capone (produtor de Raimundos, Skank, Lenine,
Legião Urbana, entre outros). Foi minha primeira produção e a segunda ou
terceira do Tom.
Como era a relação com
Tom Capone?
Trabalhamos
juntos várias vezes. Como te falei, começamos juntos na produção. Aprendi muito
com ele, essa questão de organização e tudo mais. Tivemos uma relação bem
próxima em questão de trabalho, de ter amigos em comum e tudo mais.
E você já fez muita coisa
em produção. E
de que modo a sua carreira de produtor influiu nas suas músicas?
Isso.
Hoje em dia eu já não morro mais de currículo. Haha! Na verdade, tudo que você
faz influi um pouco. Uma coisa que eu
admiro no ofício de produtor é que o ofício de produtor vem de uma razão
diferente do ofício artístico. Como produtor, eu acho que o meu trabalho é bem
realizado quando o artista que eu estou produzindo consegue chegar no máximo
dele para o álbum. Em termos de som, então, eu tenho que representar uma verdade
de outra pessoa.
Como você vê isso?
Eu
acho isso muito bacana. Para o mundo do áudio, isso é legal porque todo dia é
algo diferente. Tenho sempre que encarar estéticas talvez não encararia ou
pensar em instrumentos que eu não tocaria e saber organizar isso tudo. Eu tenho
que organizar tudo para ficar coerente. Tem dia que eu acordo e passo o dia
tocando baixo, e outros dias que passo mixando uma música. Então vivo um
cotidiano diferente um do outro.
Você disse que se sente
realizado quando o artista que você produz chega ao máximo. Consegue me indicar
um trabalho que você intitula como o máximo alcançado pelo artista?
Existem
vários. Na verdade, não tem nenhum disco que eu ouça hoje em dia e diga: ‘eu
poderia ter feito isso melhor’ no processo de produção. Sempre vai ter isso,
porque o disco é uma imersão no processo. E é muito radical, porque em um mês e
maio gravar, mixar às vezes, quatorze faixas. Mas eu fico feliz por esse
aspecto. Eu acho, por exemplo, que nunca vai ter um disco que eu ouça e não
encontre nada de errado.
Essa questão de explorar
novos sons, cuja ideologia faz parte de você. Precisamente sobre os sons do disco Artificial, com barulhos do Game Boy,
de onde surgiu a ideia?
Aquele
disco foi um negócio meio à parte. O Kassin
+ 2 já rolava. Aquilo surgiu durante uma estadia muito longa no Japão que
eu tive. Eu estava em Los
Angeles, gravando um filme, e deveria produzir um disco de um
japonês. Então eu fui direto pro Japão lá dos Estados Unidos. Antes de chegar a
Los Angeles, eu já estava há três semanas fora de casa. E tive todas aquelas
reuniões e tudo mais, estava ocupadíssimo e não via email. Era em uma época
pré-laptop, internet não era tão fácil. Quando o pessoal no Japão foi me
receber no aeroporto, me disseram que estavam com um problema. E era um
problemão, pois eles me mandaram um email dizendo que o cara que eu ia produzir
não assinou com o selo. Eu não vi esse email e acabei não ficando sabendo.
E o que aconteceu no
Japão?
O
cara que eles me indicaram como tradutor no Japão me mostrou os discos Demo
dele e eu gostei, e por fim, acabei querendo produzir o cara. Daí eu produzi o
disco para o tradutor e depois disso ainda rolou um segundo disco.
Resumidamente, eu fiquei seis meses no Japão. E o único instrumento que eu tinha
em mãos era um Game Boy, que eu acabei fazendo programação das músicas bem
eletrônicas no joguinho, ficou legal. Usei meu tempo livre no Japão para fazer
isso e ficou legal.
Seu trabalho solo atual
tem muita contribuição estética do projeto + 2?
Tem
sim. Assim como também tem do pessoal que toca comigo agora, que é Donatinho
(filho do João Donato) Stefan Sam Juam e o Humberto Continentino. Tem muita
contribuição própria deles. Eu tinha as idéias já formadas para tudo, mas na
hora em que a gente ia tocar, eles davam um monte de retoque e a gente
conversava e mudava tudo. Então eu considero que eles façam parte realmente do
projeto.
Certa vez você disse em
uma entrevista que não considera seu disco Sonhando devagar tão solo assim. É
disso que você está falando?
É
sim. Porque esse tipo de produção de música que eu faço, e que eu já fazia no +
2 prevê os artistas influindo totalmente no processo de produção o tempo todo. As
estruturas das canções não são definidas. Quase tudo a gente decide na hora
mesmo, ou eu aviso pouco antes e a gente vai fazendo. Não tem forma fechada. Eu
até gosto disso porque a gente não fica entediado.
As letras das canções
dizem de algo pessoal. Quando foi que você decidiu fazer um disco sobre os seus
sonhos?
Começou
no Kassin +2, no disco Futurismo. Nesse disco tem uma canção chamada Homem ao
Mar. Essa canção é uma descrição quase literal de um sonho recorrente que eu
tinha desde minha infância. É tudo igualzinho, a questão da aranha que ia
caindo pelo ar, como se tivesse segurado por um fio e chegava em um mar deserto
e tal. Era um sonho horrível. Começou tudo aí. Foi aí que eu pensei em fazer
canções que falavam de algo muito particular sobre mim. Isso que deu o norte
para a produção do Sonhando Devagar.
E você exclui muita música
também desse processo?
Sim,
gravei umas 15 canções. Tirei várias. Desse processo, umas duas não falavam
nada sobre sonho e eu deixei de lado. Tinha músicas que eram lindíssimas e
tenho até pena de não estar trabalhando com elas agora. Tinha um samba muito
bonito também. Eram faixas, que apesar de serem muito boas, não cabiam no
álbum. É um álbum muito conceitual mesmo.
Essas canções guardadas
já tem previsão de lançamento em algum trabalho?
Em
breve eu devo lançar em algum trabalho que venha à tona, mas nada ainda
programado.
Está pensando em alguma
nova parceria?
Sim,
estou pensando nisso. Tenho um plano de fazer um disco com o Domenico (Lancelloti).
Estamos gravando muito junto ultimamente e em breve deve estar saindo alguma
coisa. Também tenho um plano de fazer algo instrumental em um conjunto grande.
Algo com 10 ou 12 pessoas, com muito arranjo. Já comecei também a pensar em um
novo disco meu, mas ainda tudo está no início.